Eu estava bem... Afinal há
mais de 5 anos que o câncer fora extirpado da minha vida.Depois de haver
passado e enfrentado a perda de pessoas queridas e amadas ,além da minha casa,
na minha cidade natal, eu estava finalmente me adaptando a nova vida,havia
encontrado um amor, que me completava e me fazia feliz....
Mas eis que um dia
assistindo a um filme notei que o meu pescoço não tinha aqueles tendões
peculiares....Era apenas um pescoço roliço....Comecei a me apalpar para
descobrir os tais tendões quando de repente toco em um nódulo.Um nódulo, na
minha garganta? Eu não tinha mais tireoide, eu havia feito todo o controle após
a sua retirada já havia duvidado até das endocrinologistas que me acompanhavam
quando pediam uma ultrassonografia.
Não podia ser verdade... No
dia seguinte, me apalpei novamente, com calma,mas com o coração disparado e ele
estava lá...Impossível não sentir.E agora? E os planos que estava fazendo para
refazer a minha vida ao lado daquele homem que adivinhava até os meus
pensamentos? O desespero me assolou e fiquei sem saber o que fazer...Mas ,lá
dentro de mim eu sabia: o câncer estava voltando.Não seria justo para ele
enfrentar uma doença dessas.Tomei uma decisão: rompi o relacionamento por
telefone.E com aquele rompimento veio uma depressão horrível.Não falei com
ninguém...Afinal, tenho poucas pessoas para falar....Quase não tenho amigos
,família e só um filho lutando muito pela sua carreira e pela sua família.
Por muitos meses me arrastei
com essa borboletinha na minha garganta, calada, sem alegria e sem ações.... Em
fevereiro de 2013 disse ao meu filho: ele conversou com a esposa de Eraldinho,
Guacira Almeida que faz ultrassom e fui
no dia marcado fazer o exame só para confirmar o que eu sabia.
Após a ultra tomei a decisão
de não fazer nada...Havia deixado de pagar o plano de saúde e o SUS não dá
suporte para se fazer acompanhamento de uma doença desse porte.
Disse então a umas duas
amigas em Aracajú no face.Uma delas ,Lucia ficou angustiada e me telefonou: não
aceitava que eu ficasse sem tratamento e sozinha em um apartamento em
Maceió.Convidou-me para ir ficar em sua casa e se dispôs me ajudar e me
acompanhar em busca de um tratamento.
Comecei a sentir uns
problemas hormonais e de visão. Fui a endocrinologista, o que não fazia há mais de 3 anos. Ela pediu uma PAF e
outro de HTG e Antiteroglobulina que só fazia em Belo Horizonte,
Não consegui pelo SUS... O meu primo Darival ( um primo cuja mãe era prima de
meu pai) ficou preocupado.Enviou o dinheiro para que eu fizesse particular.
Fui fazer no melhor
laboratório existente em nossa cidade.Sozinha.É um exame que faz medo só em ver
o tamanho da agulha, mas eu não tinha ninguém.Precisava enfrentar sozinha um
exame que me fazia tremer até a alma.Chovia muito o que aumentou o meu frio,Não
era só no corpo...Era na alma.O médico que me atendeu ,de uma bondade infinita
ao ver a ultra perguntou por Guacira e Eraldinho.Isso nos aproximou um pouco e
estabeleceu uma conexão de simpatia...Quase não doeu...E dez dias depois pedi a
uma amiga que iria até lá fazer um exame para receber o meu...Ao pegar o
envelope, guardei-o e só a noite após o jantar foi que tive coragem de abrir:
era o câncer...
E de repente, as colegas
alagoanas residentes em Aracaju se mobilizaram.Houve uma, Mariel, que nunca
esquecerei...Falou com um primo que era médico e tinha muitos conhecimentos e
que por motivos politiqueiros estávamos afastados.Ele se prontificou a ajudar
no que fosse possível.Nailce veio para a formatura da filha e me levou de
volta. Fiquei em seu apartamento, e confesso, até hoje ninguém me tratou com
tanto carinho e paciência.Não podia ficar com Lucia Anjos pois esta tem uma loja de material de
construção e não poderia me acompanhar,além de morar muito longe.
A depressão estava me
dominando... Eu chorava até em batizado de bonecas...Não podia assistir a um
filme...Na clínica São Marcelo, uma das melhores de Sergipe em
psiquiatria, de um conterrâneo fui atendida por Glorinha ( Maria da Gloria) que
com aquela simplicidade e bondade me medicou...No dia seguinte, já sentia a
diferença: não estava mais chorando nas novelas.
Precisei fazer as unhas dos
pés e fui a uma pedóloga... O resultado foi uma infecção na unha. E fui ao
médico num posto de saúde e este recomendou retirar....Foi outra experiência
triste que passei...Mas por incrível que pareça o médico me tratou com tanto
carinho que não parecia ser médico do SUS.
Quando me recuperei um pouco
da unha fomos a Itabaiana onde Darcy era diretor de uma hospital. Havíamos
mantido contato e ele acertou que me receberia.Viagem perdida...Nesse dia, ele
não foi e nós ficamos rodando na cidade esperando a sua vinda.
Voltamos no dia seguinte e
como ele é ortopedista, não estava muito inteirado sobre câncer na região
cervical.Ficou de entrar em contato com alguns amigos e depois me avisaria. Eu
já estava desistindo quando ele me telefonou e me mandou procurar um médico
André Gentil no Hospital João Alves, na radioterapia.
Mais uma vez estava só... A
minha amiga foi comigo, mas ficou no carro.O João Alves é como se fosse o
Pronto Socorro ou o Hospital Geral daqui de Maceió.Ao entrar até fiquei
espantada: parecia um hospital particular.Muito bonito, enfermeiras educadas e
cordiais.Após uma longa espera ele me atendeu: viu os meus exames e explicou
que ele era diretor da radioterapia e que eu precisava de um cirurgião cabeça e
pescoço. Eu sabia disso: O meu primo era que não sabia. pediu que eu preparasse
um cadastro para quando precisasse e me encaminhou para outra ala.
Nesta ala eu senti porque a
minha amiga não queria entrar... Muito triste... Desolador...Todos os tipos de
doenças se veem ali...Crianças com cânceres no cérebro, outros com
sondas,muitos em cadeiras de rodas...Meu Deus! Era muito triste! Lá fui
informada que só teria médico cirurgião de cabeça e pescoço com disponibilidade
para consultas no dia 3 de outubro.mais de 30 dias depois.Só havia um para
atender a demanda de todo o Estado de Sergipe.pelo menos ainda tem um, porque
aqui em Alagoas, se o paciente não puder pagar a consulta, não tem atendimento.
E no dia 3 de outubro lá
estava eu, novamente sozinha naquele hospital horrível...Tinha gente demais!
Pessoas cujo semblante denotava sofrimento, dor e impaciência... Sentei-me numa
cadeira em um cantinho e enfiei o meu
rosto em uma revista de palavras cruzadas...Eu tinha tanto medo que não
conseguia nem olhar de lado. Finalmente, fui chamada... O médico jovem ainda,
me tratou como se eu fosse ignorante e iletrada....Até fica uma dica para os
médicos do SUS....Na ficha do paciente perguntem a sua escolaridade.Ele falava
como se eu vivesse em outro planeta....mas explicou o que eu já sabia.precisava
fazer uma cirurgia, com urgência, pois o nódulo estava afetando as minhas
cordas vocais, pediu os exames de praxe
e que mesmo correndo o risco de não falar mais após a cirurgia precisava ficar
em uma fila de espera. Mas marcou o meu retorno para o final de novembro.Sai
daquela sala em estado de choque...Foi necessário a intervenção da Assistente
Social para chamar um táxi e eu sair
daquele hospital.E antes disso marcar os exames...Não fazia todos....Precisava
ser particular....
Desesperada cheguei na casa
de Nailce e tomei a decisão de voltar para minha casa. Meu filho convidou-me
para ficar na casa dele, e lá comecei a procurar informações sobre um médico
cirurgião de cabeça e pescoço que fosse
humano e me tratasse como gente que sofre, que sente dor e sabe ler....
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